segunda-feira, 10 de abril de 2017

TEXTÍCULOS 10


Com os textículos desta semana eu fecho este processo de criação diária, pois o objetivo a que me propus foi o de escrever 108 microtextos para futura publicação num pequeno livro.


Enfim, depois de muito esforço e dedicação ele chega ao topo e afirma ao horizonte sua intenção de ali se manter. Em pouco tempo o vale lhe sequestra o olhar, preconizando a dúvida sobre o depois. E a resposta lhe flanqueia, sussurrada pela paisagem:
- Nada a fazer a não ser descer, meu caro.
09/04/17 – topo

Quero-me donzela novamente, disse a octogenária ao famoso cirurgião plástico, ansiosa por presentear virgindade ao seu belo jovem amante. Enquanto isto, na sala de espera, ele, o amante quarentão, esforça-se por resistir às assertivas investidas da secretária septuagenária.
08/04/17 – donzela

O menino certamente teria sido um bom soldado. Esta a fala mais frequente entre as testemunhas da chacina, cujo número de mortos só não foi maior por mérito dele, ou melhor colocado, do seu adolescente sonho de lutar por um mundo melhor.
07/04/17 – soldado

Ao ser perguntado pelo jornalista investigativo sobre o porquê de estar morando na rua, o irrequieto jovem rapaz respondeu ter sido expulso de casa pelos pais, com a promessa de só voltar quando pudesse arcar com a parte dele no pagamento do aluguel.
06/04/17 – aluguel

- Ai, não me venha com esse papo poético de que estou entrando no outono da minha vida.
- Eita, eu ainda não falei nada.
- Ah, mas vai falar, tenho certeza, todos falam, eu não aguento mais, desde manhã até agora, chega a ser insuportável...
- Tá, então tchau.
- Ei, você não vai me dar os parabéns?
05/04/17 – outono

Pessoa excepcional, disse o colega de trabalho à jovem viúva, seu marido mantinha como meta constante o exceder as próprias expectativas, em tudo e a qualquer custo.
04/04/17 – exceder

Para ele não há futuro. Sabe disso a partir de sua alma. Em sendo assim, enseja a si mesmo o entusiasmo despertado pelos veementes tilintares da chegada de cada amanhã.
03/04/17 – futuro



OBS.: Pequenos textos (máximo 300 caracteres) criados diariamente a partir de vocábulo sugerido por site gerador de palavras aleatórias.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

TEXTÍCULOS 09


O certificado, em caligrafia dourada, pendurou na parede da sala. A placa de alpaca, dispôs sobre a mesinha de centro. Na estante, colocado em evidência, o troféu com seu nome gravado na prata. Laureou-se vencedor comprando tudo pela internet, com frete grátis.
02/04/17 – vencedor

Mesa posta com esmero. Pão, geleia, manteiga, frios e bolo de chocolate. Em poucos minutos ele chegaria. Deu a hora e ele não chegou. Passou da hora, não veio. Conduzida pela indubitabilidade do nunca mais, desmantelou a mesa, entornou no lixo o alimento e deixou que o tempo secasse no bule o café.
01/04/17 – café

Movimentava-se pela vida como se esta fosse platéia obrigada a reagir efusivamente a cada meneio seu. Caso assim não se desse, prostrava-se em lágrimas e lamentações. Quando acusada de ser infantil, revidava, dizendo saber-se não amada por ninguém.
31/03/17 – infantil

Quando menina, passava as tardes no fundo do quintal, dando aula para um grupo de arbustos. Esta a visão que teve ao exalar o último suspiro, sentada no banco junto aos arbustos do jardim da escola onde por décadas dedicou-se a ensinar.
30/03/17 – ensinar

Rapazote de vez, estreou em seu primeiro emprego. Em uma semana viu sua felicidade esmorecer diante da estúpida repetição diária. Frente ao parco salário recebido no fim do primeiro mês como operador de fotocopiadora, pediu demissão e mergulhou no promissor mercado de trabalho informal.
29/03/17 – fotocopiadora

Ela virou folclore na região, tanto pela companhia constante ao lado dele, quanto pela gargantilha de grandes pérolas de plástico. As más línguas espalharam ser ela sua amante secreta. Certo dia, encurralado por perguntas, ele assumiu o romance com a porca e o seu sonho de com ela ter um filho.
28/03/17 – porca

Ansioso por não encontrar o sachê no armário do banheiro, vasculhou sem sucesso todas as gavetas e móveis da casa. Quando se deu conta de que, como última alternativa, procurava dentro da sapateira, uma gargalhada espontânea e farta fez por dizimar o motivo da premência pelo antiácido.
27/03/17 – antiácido


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segunda-feira, 27 de março de 2017

TEXTÍCULOS 08


- Ledevura, vó?
- Não, amor, é le-ve-du-ra, um bichinho que a gente não enxerga, mas que está fazendo crescer essa massa de pão.
- Ah, igual a minha professora! Ela ajuda a gente a ficar mais grande, só que ninguém vê.
26/03/17 – levedura

A cada vez, quanto mais fundo ia, mais leve se sentia. Ao não retornar do último mergulho, os incautos propalaram ter se perdido na própria profundidade.
25/03/17 – profundidade

Ao pendurar na parede, o fez principalmente por afeto ao pintor. Não se identificava com aquele que, no retrato, seria ele. Tudo bem, é a visão do artista sobre mim, pensou por uns tempos, até que a pintura silenciosamente tomou conta da sala e da casa, expulsando-o de si mesmo.
24/03/17 – retrato

Levou um tempo para perceber que o haviam isolado. Foi a tristeza quem lhe alertou. Ao tirar saber o motivo, entendeu que as pessoas estavam tão branco ou preto em suas opiniões, que os matizes todos pelos quais ele navegava serviram de pretexto para que o enjeitassem, acusado de alienação.
23/03/17 – acusado

Consideravam-no frio e egoísta. Diziam que não ajudava ninguém, mas todos o desejavam por perto. Havia nele um estado de presença que por si só clareava escuridões e sanava dores. Dele não sabiam nada, apenas que tinha uma estranha teoria sobre a compaixão.
22/03/17 – compaixão

Abriu as pernas, levantou a saia e pariu ali mesmo, na mata, sobre uma das touceiras de alecrim. Lavou a criança nas águas do córrego ao lado, enterrou a placenta e voltou para os afazeres na tribo. A criança nasceu mulher, como ela.
21/03/17 – mulher

Ao ver que o mundo passou a se manifestar pontiagudamente fragmentado, tomou emprestada a viseira do seu cavalo preferido e atravessou o tempo da barbárie. Os sobreviventes contam ter seguido seu rastro como a um fio de Ariadne.
20/03/17 – viseira



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segunda-feira, 20 de março de 2017

TEXTÍCULOS 07


Água potável apenas para os bem sucedidos. Caso seu nome não esteja na lista elaborada pelo Ministério do Saneamento Social, dirija-se ao cemitério mais próximo.
19/03/17 – potável

Obcecada por ter filhos, dos vinte aos quarenta se acotovelaram em seu cotidiano clínicas, terapias, tratamentos, magias, orações e o que mais viesse. Ao voltar do hospital, após perder o útero, desfez-se do casamento e do emprego. Em não mais de um mês já se ocupava como babá voluntaria.
18/03/17 – babá

Empresário no ramo de agenciamento de artistas, projetava-os em alta velocidade para o estrelato e fama. Só depois que se desintegravam ao chocar com as bocarras da mídia e do populacho é que seus clientes compreendiam o real sentido de seu apelido: Catapulta de Estrelas. 
17/03/17 – catapulta

Após ser alertado sobre a responsabilidade que deveria ter frente ao seu desenvolvimento futuro, o pequeno grão observou penalizado aquele que o advertira, um adulto todo estropiado, descer o trêmulo dedo em riste e sair claudicando por caminhos tortuosos.
16/03/17 – grão

Capacidade excepcional para liderar, administrar conflitos, cavar oportunidades, comandar pessoas e gerar lucros surpreendentes, detestava estudar. Rejeitado pelas escolas por onde passou, realocou o sonho de trabalhar em uma multinacional e se fez alto executivo do crime organizado.
15/03/17 – executivo

Chega mais cedo do que de costume. Sorridente, cumprimenta o segurança, entra na sala e corta os cabos dos computadores. Exultante, telefona para o dono da empresa de telemarketing, mas, antes de lhe falar que fez por vingança pessoal, acorda e se apavora ao ver que está atrasado para o trabalho.
14/03/17 – pessoal

Lá vai o ingênuo, acossado pela turba de capciosos. Nasceu assim, traço de personalidade que até aqui só lhe trouxe lágrimas primorosas, cristalinas no dom de sanar impurezas. Por isso estão a lhe molestar. Afligem-no para que lhe caiam pelo caminho as gotas curativas.

13/03/17 – ingênuo


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segunda-feira, 13 de março de 2017

TEXTÍCULOS 06

Pequenos textos (máximo 300 caracteres) criados diariamente a partir de palavra sugerida por site gerador de palavras aleatórias.

Enfadado pelas lambidas macias, úmidas e lisas das comodidades, na vida, ainda que por vezes desconfortante, passou a comungar da honesta clareza do que é áspero.
12/03/17 – áspero

Tendo desenvolvido grande perspicácia no entendimento da alma humana, compreendia perfeitamente o mecanismo que, cultivado pela ignorância, atuava nas barganhas do mercado dos sofrimentos. Foi por compaixão que aprendeu a ser, exceto em alguns raros casos, um insulto às dores alheias.
11/03/17 – insulto

Fracasso financeiro. Como saída, morar num quarto de empregada, oferecido pela amiga.
Em meio às coisas da mudança, a foto. Octogenários sorrisos em festa, lá estavam os dois de mãos dadas, dizendo – Tudo passa, meu neto, tudo passa!
A foto dos avós foi a primeira parte dele a entrar no quartinho.
10/03/17 – avós

Voltando do trabalho, entediada, devaneia sobre o sem graça da existência. Ao virar a esquina é impedida de avistar a casa; em vôo rasante lhe sobrevém imensa ave escarlate, cujo longo bico alaranjado colhe o seu olhar e o carrega para a linha entre o céu e a terra. Dalí o seu novo ponto de fuga.
09/03/17 – fuga

Insuportável verborragia. Intragável quantidade de frases proferidas aos borbotões. Sem mais ter dos seus quem o ouvisse, ele danou a andar pelas ruas.  Desbragadamente vociferava à ninguém, à todo o mundo, até ser asfixiado pelo fluxo, desatinar de si e articular a palavra silêncio.
                                                                                                                                     08/03/17 – palavra

Desde pequeno lhe ardia o fogo do inferno interior. Adulto, submundo já em brasa, conduzia à grelha todos os que se aproximavam. As carnes mais tenras, devorava-as ao ponto; as mais resistentes, preferia que tisnassem. Do quarto ao lado dava para ouvir seu ratar, manducar e deglutir.
07/03/17 – grelha

Diariamente ela mede, palmo a palmo, verificando a igualdade das dimensões. Posiciona-se no centro e gira, seis faces, gira, oito arestas, gira, oito vértices, gira até esfacelar em êxtases o monótono cubo mental onde se encarcerou.

06/03/17 – cubo

segunda-feira, 6 de março de 2017

TEXTÍCULOS 05

Dezembro? Não gostava. A insana parafernália natalina fazia com que a cada ano ela sentisse mais vergonha de suas origens cristãs. Compras intermináveis, felicitações forçadas, excesso de comida, decorações descontextualizadas... “Só mais este ano, e fim.” - justificava-se, ao entrar em cada loja.
05/03/17 – dezembro

Um passo depois do outro, norteado pelo som do dolorido piado, pé ante pé ele se esgueira pela escuridão do quintal até a mãozinha encontrar a arapuca. Ao levantar a armadilha, a lufada de um bater das asas lhe ilumina a face, o quintal e o pesadelo do irmão mais velho.
04/03/17 – armadilha

Sol a pino. Khaled desce do camelo e se afasta até sumir por entre as dunas. O animal, conduzido pelo instinto, retorna à casa.
- Onde se meteu aquele infeliz inútil? - pergunta para o camelo a raivosa esposa.
Em resposta ele lhe cospe na cara e volta a lacrimejar na direção do deserto.
03/03/17 – deserto

Irritada, coloca-o sob a goteira e senta-se ao lado, decidida a vê-lo encher. Como demora, ela dorme. Acorda a tempo de seguir a gota que faz o balde transbordar em fio de água, da borda ao chão. Volta a escrever, agora em paz.
02/03/17 – transbordar

Contam ter começado assim: Naquele dia não estavam servindo espaguete ao alho e óleo. Decepcionado, Adriano decide se retirar, mas não o faz, pois o rapaz na mesa ao lado, sensibilizado, docemente lhe sugere provar o delicioso talharim ao sugo, por conta e risco dele mesmo, Antínoo.
01/03/17 – talharim

Deprimida, colocou na vitrola a música que a fazia chorar. Ao ligar, acelerou por engano a rotação. Tudo ficou divertido, engraçado. Depois, desacelerou, e as coisas ficaram macabras, assustadoras. Ao voltar a rotação normal, a ela já não mais interessavam as lágrimas.
28/02/17 – rotação

Livro aberto para os amigos. Aos estranhos, acessível. Para o mundo, escavado em leito. Fechou-se ao ser esbofeteado pelo juízo de que a unilateralidade de toda aquela abertura havia lhe dilapidado a pureza, carcomida pelas malicias alheias.

27/02/17 – aberto

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TEXTÍCULOS 04

O início se deu num dos requintados jantares na casa de seus pais. A bela adorava licor. Feliz demais. Incômoda em excesso. Agressiva ao extremo. Infeliz no limite.
Feia e decaída desumanamente, pagou com imundo boquete o derradeiro litro de gasolina.
26/02/17 – licor

A massa amorfa avançava lentamente. Penetrava em todas as coisas existentes, conferindo-lhes irresistível apatia. Não houve ciência ou religião que a pudesse conter ou explicar. Assim contam os descendentes daqueles que partiram da Terra antes da extinção do planeta por inanição intra-atômica.
25/02/17 – massa

O auto-falante do parque de diversões anuncia:
- Atenção, encontramos uma menina perdida. Atende pelo nome de Sueli. Senhora mãe, pedimos o favor de se dirigir ao hotel em frente ao parque, trazendo documentos, anticoncepcional e camisinhas. Obrigado.
24/02/17 – auto-falante

Filho de violinistas, nasceu menino e foi batizado Antonio Stradivarius Silva. Criança sensível, apesar de crescer sob a égide da primorosa sonoridade das cordas de seu ser, não foi poupado pela brutalidade do mundo que desafinou seu instrumento a ponto de desfigurar Antonio em Estradivaria Antonia. 
23/02/17 - stradivarius

Vida Universo e Cosmos Caos se uniram em matrimônio no exato momento em que nasceram, ambos de pais irrevelados. Dessa união surgiu Natureza, que autogerou e pariu Mundo, a quem emprenhou de Consciência, a chama de parto lerdo e doloroso.
22/02/17 - natureza

Ele parou por uns segundos no topo da escada, antes de ser conduzido à abobadada e úmida escuridão. Séculos se passaram. Então, ele se permitiu os mesmos segundos, desta vez ao pé da escada de aço que o levaria para fora daquele calabouço que hoje chamam de penitenciária.
21/02/17 - calabouço

- Bom dia, mamãe. Que uivo foi aquele esta noite, lá no seu quarto?
- Pois então, minha filha, essa é uma longa história. Suco ou café?
- Vodka!

20/02/17 - uivo

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

TEXTÍCULOS 03

A página em branco queria muito mais que palavras, pedia sua alma. Ele negaceava a entrega. A peleja rendeu noite e madrugada. Ao ver o sol, através das frestas da veneziana, riscar a folha em branco sobre a escrivaninha, esqueceu-se de si e se pôs a escrever.
19/02/17 - escrever

Ridicularizado por todos, passou a vida sem tirar as meias. A feiúra dos pés o constrangia mesmo quando estava só. Hoje as desvestiu em público, no vestiário da escola. Aconteceu de ontem se perceber amado.
18/02/17 - meias

Vagava pela cidade, e o odor acre lhe garantia comida sem muitas delongas, esmolas lançadas de longe e privacidade para sua tristeza. À noite, sob a velha marquise, intrigava os colegas barbeando-os gratuitamente e com aquela excepcional habilidade no manejo da navalha profissional.
17/02/17 - navalha

Loiro, procurava uma loira. Filhos loiros, esta a sua exigência. Após a sexta loira renegada, e seis rebentos rejeitados, veio-lhe, enfim, o filho loiro. Nasceu da sétima loira, que, oxigenada pelas outras seis,  após o parto, rejeitou-o, negando-lhe comprovadamente a paternidade.
16/02/17 - loiro

Tinha sérias dificuldades com ela, pois a considerava muito violenta. Não utilizá-la, esta a sua norma. A questão é que a palavra aço continuava a existir, e o feria profundamente toda vez que pronunciada. Não teve dúvida, pôs fim aos tímpanos com uma lâmina de ... cirúrgico.
15/02/17 - aço

Poderia ser apenas Tripé, mas não, entendia-se especial, então, agregou o artigo “O”. À todas e todos que atendia, contava e recontava ser filho de um alemão “de passagem por aqui”, e que a mãe, negra, era dali mesmo, “desta zona onde fui criado e educado até fazer fama como O Tripé!”.
14/02/17 - tripé

Semanas sem carteiro, arrastou-se até a agência. Lá, a mão trêmula exigiu as cartas. O gerente, em não as tendo, entregou-lhe o recente telegrama. Já em casa, poltrona, óculos. Arrumou o coque e foi encontrada assim, uma mão com a fúnebre notícia, e a outra, firmemente apoiada no andador.
13/02/17 - carteiro

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

TEXTÍCULOS 02


­— Rastejar... tudo bem, eu rastejo - disse, já se agachando.
Interrompido, ouviu:
— Nu.
— Nu... tudo bem, eu tiro a roupa - murmurou, já tirando-a.
Então, ouviu:
— Não precisa mais.
— Não precisa... tudo bem, eu tiro assim mesmo - sussurrou, ao vê-la se agachar e rastejar até ele.

12/02/17 - rastejar

Restaurante cheio. A bela garçonete, ao servir o Châteaux Le Pin:
- O senhor é o Presidente, não é?
- Sim, ele é o Presidente, respondeu o assessor, já se levantando.
O som seco do tiro certeiro detonou o pandemônio nacional.
11/02/17 - presidente

Queria resolver. Toda vez que tentava, repetidamente a voz lhe dizia:
- Cuidado! Vai sofrer...
Até que surgiu outra voz:
- Mas já tem tanto tempo que você sofre!
Então, deixou de remexer o passado, que se foi, junto com as vozes e o sofrimento.

10/02/17 - remexer

Ateou fogo em sua banca de jogo, que também era ponto de drogas.
- É que hoje aprendi a palavra clichê...
- Entendi, disse um dos bombeiros, você quis apagar com fogo esse maldito padrão das periferias.
- Pois é, disse, já algemado... outro clichê!
09/02/17 - bombeiros

Deu-se que incorporaram ao amor, e fez-se perfume o incômodo odor.
08/02/17 - odor

Descobriu que ela adorava pinguim. Apareceu no meio da tarde, vestindo fraque e com um buquê de flores. Excitada, ela o puxou pela mão e, arrastando o chinelinho pelo corredor, contou à todos da ala de oncologia pediátrica que ele veio da Antártica.
- Especialmente para me ver!
07/02/17 - pinguim

Ao ver o casal, soltou-lhe a mão e explodiu em corrida desabalada. Por sobre os carros, possessa, atravessou a avenida. Quando um policial pôs fim à tosca coreografia de gritos histéricos e tapas desferidos contra o “ex”, ele já não estava mais na outra margem. Mariana nunca mais o veria.

06/02/17 - mariana

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

TEXTÍCULOS

Após terminar a participação no II Concurso Escambau de Microcontos, continuei elaborando um por dia, a partir de palavras aleatórias. Decidi categorizá-los como textículos:


Aconteceu de novo, pensou, ao ver o estado da blusa. Então, calmamente lhe estendeu a mão. Ela, em lágrimas, compreendeu, aceitou e testemunhou, na sala vizinha, braguilha ainda aberta, o chefe sangrar, esmurrado em nome do embrulho no estômago de todos os da empresa.
05/02/17 - estômago

Investigando-se diante do espelho, entristeceu
- O Dr. Luiz vai resolver isso.
Agendado um horário, avistou o olhar de dona Deolinda. Aproximou-se.
Esculpida em marfim e amarelada pelo tempo, a moldura da foto transmitia imensa beleza atemporal. Agradeceu à avó e cancelou a consulta com o dentista.
04/02/17 - marfim

Finda a coroa, guardou-a na linda caixa de chapéu. Dos dez aos dezoito, em meio às brutalidades sofridas, revisitou com frequência o sonho de menina. Hoje, dia dos seus dezenove anos, retirou-a da caixa, entronou-se rainha e desfila redimida e nua por entre os súditos da clínica psiquiátrica.
03/02/17 - rainha

Deu-se início ao procedimento para por fim ao caos social. Aplicadas cirurgicamente, nas categorias Gold, Silver, Copper, Brass, Aluminum, as novas sobrancelhas indicam o status de cada cidadão. Como única opção aos que se recusarem, a lei prevê o banimento para a ilha Ex-Brazilis.
02/02/17 - sobrancelha

Emergiu, impelido velozmente pela força das famintas profundezas. A intensidade do empuxo o içou à chefe de Estado. À exemplo de outros tantos, voltaria a ser tragado, carregando consigo a farta colheita: toda uma Nação.
01/02/17 – estado

Acordou certo do que deveria fazer. No sonho, verteu todo o adoçante no ralo da pia. Na vida, nunca mais aquele fundo amargo sob a falsa doçura.
31/01/17 – adoçante

Ela escolheu o momento em que os médicos se retiraram para discutir o caso. Ao voltarem, restou-lhes a perplexidade diante do cadáver. A vida havia decidido se afastar daquele corpo, poupando-lhe dos sofrimentos ainda maiores.
30/01/17 - médicos


domingo, 29 de janeiro de 2017

MICROCONTOS 02

Aqui os microcontos que enviei durante a última semana do II Prêmio Escambau de Microconto (http://escambau.org), criados a partir de palavras lançadas diariamente pelos organizadores.

PALAVRA DO DIA 29/01/2017: Quadrado

01 - No início da manhã, ordenou que a queria um quadrado perfeito. No final da tarde, ao arremessar o aprendiz de pedreiro pela janela fora de esquadro, traçou seu destino àquele cubículo.

02 - A meta era percorrer o quadrado. No meio do caminho, não resistiu enviesar pela diagonal. Primeiro a chegar, viu-se desclassificado e rebaixado à categoria triângulo.


PALAVRA DO DIA 28/01/2017: Criança

01 - Toda criança é chata e irritante, assim acreditava o casal. Decididos a não fazer filhos, veio-lhes um, inesperado. Tira, não tira. Não tira, aconselhou-lhes a moral vigente. O menino foi muito bem criado pelos avós.

02 - Diziam estar lá dentro. Certamente a encontraria. Estudou, pesquisou, seguiu inúmeras técnicas ditas eficazes, e nada. Foi quando, já convencido de que a busca fora em vão, ela lhe chegou, fazendo “buh”, a sua criança interior.


PALAVRA DO DIA 27/01/2017: Ferradura

01 - Apreensivo, não desgrudava os olhos do rosto do pai, refletido no espelho retrovisor. Entre as mãos trêmulas, o embrulho destinado ao próximo domingo.
Fracassou o almoço de dia dos pais. Sobre a mesa, comida fria e o par de ferraduras esculpido em argila escolar.

02 - As enferrujadas, penduraria nos aposentos, acima das portas. As outras, sobre a porta de entrada e debaixo de cada móvel da casa.
Refestelado na cadeira da ampla varanda, matutava sobre o destino das ferraduras e admirava satisfeito a tropa de cavalos correndo livre em direção ao vale.


PALAVRA DO DIA 26/01/2017: Domador

01 - Exímio domador de leões, ambicionando mais fama, substituiu-os por hienas.
Em sua lápide, lê-se: Elas estão rindo até hoje.

02 - Tímido, introspectivo e desajustado, foi ainda na adolescência que se lhe despertou o talento para domador de almas usando a sua como chicote. Hoje? Ele? Escritor.


PALAVRA DO DIA 25/01/2017: Humano

01 - No fim da linha, duas filas, uma destinada aos humanos e outra aos normais.

02 - Voluntário, ensinaram-lhe ser humano. Resultou que lacraram definitivamente o laboratório.


PALAVRA DO DIA 24/01/2017: Trem

01 - Avião, ônibus ou o velho e esporádico trem? Decidiu-se por este último. Chegou em sua nova vida livre dos apegos e memórias nada saudáveis.
- Foram se me despregando pacificamente, acredito que levados pela assimetrias dos sons e a lenta evolução da paisagem, contava.

02 - Cabeça entre as mãos e cotovelos apoiados na janela de alumínio, ela sussurrava: um, dois, três, quatro, cinco, seis, ... e quando, por entre a nesga entre os dois prédios da frente, passou o décimo sexto vagão do trem, o cliente desengatou-se dela e foi se lavar.


PALAVRA DO DIA 23/01/2017: Cabo

01 - Obstinado, passo a passo venceu o cabo de guerra com as forças opositoras do destino. Quem assume hoje o farol do Cabo da Boa Esperança não é o faroleiro experiente, mas o menino a quem o belo professor de geografia impactou com a antevisão do encontro entre o Índico e o Atlântico.


02 - Cabo, sim, e disto sempre expressou orgulho, inclusive quando da justa bofetada desferida contra seu superior. Após a condenação, não desmantelou sua altivez, mesmo sabendo que se capitão ou coronel fosse, veria seu encarceramento descer à “patente” de simples advertência.

domingo, 22 de janeiro de 2017

MICROCONTOS

Textos que venho escrevendo para participar do II Prêmio Escambau de Microconto (http://escambau.org), criados a partir das palavras que são lançadas diariamente pelos organizadores.

PALAVRA DO DIA 22/01/2017: Parede

01 - Espalhados pelo mundo, e sem fazer conta das feridas, pequenos grupos trabalham incansavelmente. Do suor impresso em cada pedaço retirado, divisam apenas a beleza da obra em andamento: desmantelar as paredes levantadas pelos ódios e preconceitos.

02 - Um a um, por décadas, sobrepôs os tijolos das quatro paredes que o isolariam do mundo mau. Ao cimentar o derradeiro bloco, perplexo, testemunhou o exalar do último suspiro do bem.


PALAVRA DO DIA 21/01/2017: Trança

01 - Na saída da escola, lá vinha ele, mão entrelaçada com a da coleguinha. Nas balançantes tranças da menina, que lhe emolduravam a pele negra, a explicação. E a mãe decidiu deixar de tramar contra o novo trançado no loiro cabelo do filho.

02 - Arrependido, ao vê-la emergir pela primeira vez, entrelaçou as mãos na trança e a puxou com força, mesmo que ainda tomado do ódio por ela ter saído em público com os cabelos trançados.


PALAVRA DO DIA 20/01/2017: Ocupação

01 - A ocupação se deu timidamente e aos poucos. Toda semana trazia algo e largava “esquecido” em algum canto da casa; até que indubitavelmente, e enfim, trouxe a si próprio.

02 - Viveu sem nunca saber ao certo a que ocupação se dedicar. Disto desocupou-se aos sessenta, quando da chegada do piano, herdado de uma tia distante.


PALAVRA DO DIA 19/01/2017: Comida

01 - Embora faminto, com o feijão ainda se acomodando por entre os grãos de arroz, ao lado da omelete e vizinho da banana frita, ele saiu do restaurante popular levando o seu prato de comida em oferecimento àquele passante maltrapilho que, ao sentar para comer, o seu canto de olho havia divisado.

02 - Artista talentoso, sensível, alegremente preparava a comida com a xepa da feira de domingo. A continuidade do seu fazer artístico, que a ninguém interessava servir de alimento, dependia daquela sopa que deveria durar até a feira das quintas.


PALAVRA DO DIA 18/01/2017: Livro

01 - Subiu num caixote de feira e alongou o corpo para enxergar melhor. Naquele exato instante virou herói nacional. Filho de ninguém, mendigo profissional e sem nunca ter lido um livro sequer, amparou em si o balaço certeiro destinado ao letrado Presidente da República!

02 - Vinte e nove mil e duzentos livros em oitenta anos. Faltando apenas aquele para preencher o último espaço vazio, subiu na antiga e pequena escada. Ao estalido, seguido de seco estrondo, saltou o gato, para nunca mais voltar à sua poltrona favorita.


PALAVRA DO DIA 17/01/2017: Maré

01 - Escolheu uma praia deserta. Cavou fundo e depois se enterrou. Desta vez daria certo, bastava esperar a subida da maré e estaria livre. Então, ouviu ao longe:
- Papai, vem ver, tem uma bola lá na praia!

02 - Hematomas no corpo, alma e casa. Curou-lhes a força da maré, que, diante de seus olhares estáticos, lambia derradeiramente para si aquele amor castelo de areia.


PALAVRA DO DIA 16/01/2017: Juiz.

01 - Ao fim da sessão do tribunal do júri, soturnamente se retirou para o seu gabinete. Após a quinta hora de isolamento diante das fotos das vítimas fatais, saiu e comunicou à sua equipe, com uma calma irreconhecível, a decisão de encerrar em caráter peremptório a sua carreira de juiz.

02 - Ali, em verdade, não esteve investido de juiz aquele a quem coube a função. Vestindo a toga e brandindo derradeiramente o martelo, encontravam-se o poderio econômico e a desconcertante viril beleza do réu, enfim, e sob esfuziante comoção geral, aclamado inocente.


PALAVRA DO DIA 15/01/2017: Gaivota.

01 - Rapidamente fez o laço na linha imaginária e o lançou certeiro até o pescoço da gaivota. Ao ser por ela içado, conheceu pela primeira vez a absoluta leveza. A visão de seu corpo estatelado nas pedras, ainda lembra, comoveu-lhe pela beleza impar e total ausência de culpa.

02 - Eram três. Seguiam num vai e vem acompanhando a linha móvel da água que invadia e desinvadia a areia grossa da praia. A naturalidade daquelas gaivotas, bicando aqui e acolá, contrastava pateticamente com a devastação e a tragédia humana à sua volta.


PALAVRA DO DIA 14/01/2017: Lenha

01 - Sentados sobre o cimento do diminuto quintal, frente a frente, testa com testa, decidiram ser troféus as duas espigas de milho ali, sob a improvisada lenha em brasa.

02 - Lenha e mais lenha, era só o que fazia todas as manhãs. Durante as tardes, alimentar o depósito da caldeira. À noite, céu coalhado de estrelas, histórias de marinheiros e a ainda lembrança do que foi preciso deixar para trás.


PALAVRA DO DIA 13/01/2017: Trator

01 - Ofegante, com as mãozinhas feito pás de trator, cavou a terra ainda fofa até encontrar a pelagem macia, aquela que por tantas vezes, entre saltos e reviravoltas no ar, afagara festivamente.

02 - Passear de trator sempre lhe trouxe uma grande alegria, mas hoje ela é imensa. Pela primeira vez o ronco da máquina e, ah, a voz e as gargalhadas do avô, no colo do qual Felipe estréia em seu ouvido o tal aparelhinho mágico.


PALAVRA DO DIA 12/01/2017: Encerramento

01 - Ele surge avermelhando, alaranjando, iluminando. Uma última lágrima contém o gosto inteiro deste mar que acarinha pernas e amacia a fina areia sob os pés. Clarificada, ela, antes dor, testemunha em si o encerramento do destemperado desejo de ir, ir, para nunca mais voltar.

02 - Simplesmente abriu a porta e saiu do encerramento de décadas.


PALAVRA DO DIA 11/01/2017: Trópico

01 - Imensas cochas e farta genitália sob o céu dos trópicos. Um passo-pé na trilha de câncer e outro na de capricórnio empurram o mundo a girar em voltas completas. Nu e febril o gigante tropical caminha encharcando de suores populações de múltiplos calores.

02 - Loura, lourinha. Branca, branquinha. Aconteceu de a vida lançar-lhe em um salto ornamental, da neve aos trópicos. Então, encarapinhou, amorenou, coloriu de gentes e floriu de humores tantos que gelo só em sucos refrescantes e exóticos coquetéis.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

domingo, 2 de outubro de 2016

+ 03 livros

Publicados no formato e-book, numa tacada só, três novos livros:

Estão no site da Amazon:
Pilulas De Caos - Inquietudes Rumo Ao Pouso - Histórias & Historietas

Bem legal o aplicativo gratuito, que permite que a leitura seja feita tanto no computador como no smartphone ou tablet: KINDLE


A proposta ao escrever estes pequenos textos foi a de permitir momentos de caos, a fim de que através da livre observação de sua expressão fosse possível a percepção de sua ordem intrínseca, presente em subjetividade que poderia ser experimentada à revelia da desordem formal aparente.
O processo consiste em deixar vir, no sentido de permitir que a escrita flua sem que se esteja atento à racionalização da estrutura e organização em torno de alguma ideia pré-estabelecida.
Em todos os textos a decisão de escrever nasce de um insight, um clarão impactante, vindo de forma espontânea e em momentos diversos.

Para uma melhor fruição, apenas leiam palavra após palavra e deixem que a intuição ou insights espoquem possibilidades de significado. Não queiram retê-los, pois o importante é não permitir que se apodere o desejo de entender/decifrar o que está escrito. A grande experiência com estes textos é observar desinteressadamente as imagens e significados que surgem e observar sua “dança” ao redor de você.

Uma pílula:


treina treno tremo só de pensar que treinando a tremer no trenó de algum um único eu todo santo de existência profícua possa saber de mais e mais do que a maioria que também treina –  só que sem trena – a trena que conta que não é trena de medir que não é trena de esticar que não é trena de trena conhecida no um mais dois mais três que dão algo lógico e também abstrato mas abstraído da vívida poética desmedida e vivente
sim possa eu saber mais tremendo mais que estes que não chegam que não chegam lá que não chegam lá na ponta na ponta – a ponta da ponta que toca a bola intumescida esticada fina película apta ao rasgo explosão boooooommmmm que encharca lava e leva para outro estado lugar que este o de aqui - deste aqui já repetido em mim e por mim todos vocês nós temerosos e trementes trêmulas mãos e pernas e línguas e dedos unhas cabelos células grupos de partículas nada particulares ovulozóides multiplicando mais e mais dentro e fora até formar a forma que sente pensa e age em fuga tempo o todo medo da ponta na bola

entre adentre e trema tudo todos explodidos medos de disseminar a si próprio em rastilhos de novos e novas do avesso desdobradas e reveladas para enfim destreinadas gentes



Esta seleção de textos escritos entre os anos 1990 e 2016 propõe reflexões sobre assuntos envolvendo o tema conflito psicológico. A partir de abordagem poética, os textos revelam inquietudes nascidas no dia a dia. A força das palavras que, encordoando-se em sentidos, materializam voz àquilo que inicialmente era apenas percepção abstrata.

Uma inquietude:


No conceito morte, aqui não abordo a morte biológica (embora o caminho certamente seja o mesmo), está implícito o desaparecimento do observador que, de forma distanciada, reporta elementos constitutivos da percepção de que se está vivo, de que se tem uma vida “minha”. Medo da morte é o medo do desaparecimento deste observador a quem se acredita ter sido outorgado o papel de afirmar e reafirmar a imagem que se tem de si e do mundo, a identidade que se constrói de si, do  outro e do mundo. O desaparecimento deste observador é entendido como o desaparecimento do conteúdo daquilo que “entendo” por “mim”. Este conteúdo está relacionado com a memória (psicológica) acumulada, que eu chamo de literatura pessoal.  As perguntas revolucionárias feitas pelo pensador indiano Jiddu Krishnamurti propõe, talvez, um fio de Ariadne: É o observador separado da coisa observada? É o experimentador separado da coisa experimentada?

E reflito: não estaria no território gerado por esta separação o solo onde cresce o medo psicológico e floresce a dissociação que frutifica em conflito? Não estaria aí o nascedouro de grande parte do sofrimento humano, que faz com que as pessoas desejem tanto a morte a ponto de horrorizarem-se com a possibilidade de sua existência?


 

O livro é composto de  pequenas histórias desenvolvidas a partir de observações sobre a vida alheia, vivências pessoais ou lampejos imaginativos. Abordam temas ora sérios, ora divertidos. Através de vários formatos narrativos, de modo geral, os textos propõem reflexões sobre as provocações lançadas pelo viver.

Uma historieta: A CARRUAGEM

Um cocheiro, em mais um dia de trabalho, conduzia sua carruagem. Em determinado momento tudo deu um salto, um pulo, uma virada, um click, e a carruagem se percebeu consciente e percorrendo uma sequência ordenada de raciocínio, num prazeroso movimento de lucidez. Naquele momento entendeu que suas rédeas eram instrumentos do coração; os cavalos, do instinto; o cocheiro, da razão. Os passageiros seriam as outras possibilidades de consciência em seu interior; a bagagem, histórias e experiências vividas. E as rodas? Ah! Certamente instrumentos da liberdade!
Percebeu-se feliz, viva e plena de sonhos, desejos, fantasias. Sentia-se alimentada de ânimo e coragem para realizações inomináveis. E se lançou à excitante tarefa.
Mas, antes que houvesse passado um momento inteiro, fez-se presente um aperto estranho em algum lugar de seu ser. Prontamente se concentrou em busca de compreensão, e nesta busca constatou que o ânimo inicial estava sendo dilapidado, roubado, surrupiado. Ah! Olha lá! Havia se esquecido dos freios - instrumentos do medo, certamente! Foi então, e exatamente aí, que se descolou da vertigem e viu que a bagagem estava chacoalhando, os passageiros reclamando, o cocheiro suando e rezando a Deus, as rédeas descontroladas e os cavalos, desenfreados, de olhos arregalados. Num arroubo desesperado, devido à constatação de que eram os freios do medo que lhe ameaçavam, se pôs a gritar, xingar e, aos urros, reclamar. Seu último urro, de um ódio imenso, ouviu com plena consciência. E foi neste momento que se deu conta do poder do medo... Então, tudo e todos emudeceram, paralisaram!
A Carruagem sentiu vergonha, mas logo respirou fundo, enxotou a culpa e, calmamente relatou a todos os envolvidos a visão que teve.
Os passageiros caíram de joelhos. O cocheiro sorriu aliviado, refestelado em seu assento. As rédeas cochilaram sobre o lombo dos cavalos que roçavam um ao outro, namoricando. As rodas apenas pararam de girar e aguardaram, prontamente dispostas, enquanto o freio babava graxa de tanto ainda gargalhar. Bastou um olhar de nossa amiga Carruagem para que o perspicaz cocheiro compreendesse a questão e, num movimento ágil e firme, soltasse completamente o freio. Ele, o freio, parou de gargalhar; e com a graxa ainda escorrendo por entre as mandíbulas, chorou lágrimas viscosas.
Naquele momento não houve espaço para palavras, sentimentos ou qualquer coisa que os valha. A Poesia pousou - preencheu com uma substância incompreensível todos os ocos e vazios.
E as rodas giraram. Os passageiros chegaram a seus destinos. As bagagens foram entregues em perfeito estado. O cocheiro continuou seu trabalho. As rédeas seguiram, repetindo sua coreografia. E os cavalos, quando não lhes era exigida a força, roçavam-se, namoricando.
A Carruagem? Esqueceu-se de si e segue em seu leva e traz!
Depois do ocorrido, quem a vê, fica a matutar, maravilhado, sobre o estranho encantamento que ela exerce... parecendo possuidora de uma harmoniosidade inatacável e inabalável!

 São Paulo, 2011

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Livro DESTINIA - POETRILHAS


Vivas! Estou feliz, pois lancei meu primeiro livro, “Destinia – Poetrilhas”. Ele está à venda no site da Amazon (www.amazon.com.br).

Após organizar meus textos escritos a partir de 1992, decidi publicá-los no formato digital (e-book). DESTINIA é o primeiro livro e contém as “poesias” (que prefiro chamar de poetrilhas) acompanhadas de imagens digitais que, em sua maioria, foram produzidas por mim, texto a texto, durante a montagem do livro. Nelas, busquei encontrar a forma mais imediata e simples possível em mim.
Na sequência publicarei outros livros com os outros escritos: histórias, pequenos textos, contos, roteiros e peças teatrais.

Vejam lá! Espero que apreciem!

Link para livro no site da Amazon:

Para quem não tem o leitor de livros Kindle, basta seguir o link seguinte e baixar o aplicativo gratuitamente, escolhendo as opções para PC, smartphone ou tablet (é necessário se inscrever no site da Amazon.com.br):


Destinia é o título de uma das poetrilhas:

por mais medíocre
que a visão de mim
me faça
não resta, não sobra
outra
coisa
fato
senão
o
de
ter-me assim
do jeito e maneira
que sendo sou
medíocre ou não
- veredicto que de meu
nada é, nada pode ser
a não ser o fato
simples ato
de ser eu
aquilo que em sendo

sou

quarta-feira, 30 de julho de 2014

NOVA ENTREVISTA PARA PERFIL LITERÁRIO-RADIO UNESP

Vivas!
Aproveitando a reestréia do espetáculo PEGASUS DESVARIO, o sempre gentil Oscar D'Ambrosio realizou esta entrevista no Programa Perfil, da Rádio UNESP.
Valeu!

PROGRAMA PERFIL - OSCAR D'AMBROSIO ENTREVISTA RUBENS CURI - 24-07-2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

ENTREVISTA PARA PERFIL LITERÁRIO - UNESP (2010)

Achei algo de quatro anos atrás: entrevista dada ao gentilíssimo Oscar D'Ambrósio, na Radio UNESP - Perfil Literário. Falando do NCDR, recém inaugurado, e do meu espetáculo, Pegasus Desvario, também em seus primeiros passos. Forte desejo de retomar Pegasus Desvario!!!

Oscar D'Ambrósio entrevista Rubens Curi - Perfil Literário UNESP

segunda-feira, 22 de julho de 2013

LEMBRETE

Peço que tenhamos em mente as armadilhas que nossos sentimentos e pensamentos solitários ou comungados parcialmente podem provocar, quando alimentados pelas nossas idiossincrasias, gostos e opiniões pessoais. Procurem lembrar que relações são alimentadas, para o bem ou para o mal, baseando-se em níveis de rejeição ou aprovação. O tal: isso me faz bem/isso me faz mal - gosto/não gosto - concordo/não concordo - quero assim/não quero assado - o meu é melhor/o teu é pior - do particular ao geral é nesta dança do eu/meu versus teu/seu que são cometidas as maiores atrocidades na história da humanidade, tanto no âmbito privado quanto no coletivo. E começa assim, o individual descontente que soma a outro individual descontente e que, quando vemos, lá estão os dois lados se dIgladiando em nome daquela mentira que cada um pensa ser verdade. E tudo fica reduzido a este patético e nada criativo conflito alimentador dos egos cada vez mais inflados de suas "verdades" – dane-se o bem estar do vizinho, da vila, da cidade, do pais, do planeta, da humanidade - eu quero provar que estou certo e os outros errados. Assim tem vivido nossa humanidade e é disso que tem se alimentado: conflito, conflito, conflito - e o final é sempre o mesmo: a banda "boa" achando que destruiu o mal, a banda "podre". No final saem todos perdendo, sofrendo. Esta é a fórmula tida como de sucesso e de evolução que a humanidade tem vivido e acreditado como certa. É assim que nossas sociedades tem se comportado e "crescido". E na periferia dela, da humanidade, a fome, a violência, a injustiça, a dor, a magoa, o ressentimento, a revolta.

Faço estes apontamentos, assim tão enfáticos e abrangentes, buscando comunicar a visão que tenho do quanto o sofrimento vivido por nossa humanidade tem seu gérmen no seio da parcial insatisfação individual. Estas insatisfações são nascidas do ego, do eu que precisa sobreviver preservando a identidade que ele acredita ser a sua; bastião de sua segurança e sobrevivência física, emocional e psíquica.

Quanta guerra cotidiana eu testemunho entre os que me são próximos. Quanta voracidade em seus pensamentos e emoções. Quanto desgaste na constante luta para afirmar a existência de suas identidades. Eu também percebo isto em mim, e é terrível, cada vez mais terrível observar a existência e o poder deste "ser" inventado pelo meu "senso de identidade", e que não sou eu - é uma espécie de tirano que rouba quem somos e coloca no lugar um zumbi automatizado pelas engrenagens mais prosaicas dos pensamentos nascidas das memórias medrosas, egoicas, ambiciosas. Ver este terrível zumbi atuando em mim faz com que eu enxergue claramente a fonte dos conflitos e, desta forma, consiga refletir: ok, este é o zumbi - ok, este sou eu - ok, posso optar entre ele e eu - e cada vez mais opto por quem sou e não pelas memórias psicológicas que tenho da vida, dos outros e de meus medos e prazeres. Quanto mais percebo a atuação do zumbi em mim, mais o desmascaro. Quanto mais o desmascaro, menos poder ele tem de obscurecer quem sou. É um exercício muito simples: tomar consciência apenas - isto já basta, pois vou me dando conta que me é possível estar consciente de que estou consciente - uma benção para mim, um horror para o zumbi.

Todos nós, de acordo com cada vida e contexto, desenvolvemos um olhar sobre como deveriam ser as coisas, e este olhar deve ser respeitado como elemento que compõe a construção do todo, e não utilizado para determinar, individualmente, como as coisas devem ser, segundo valores que no fundo são apenas pessoais. Os integrantes de um grupo, que optaram por construir juntos este grupo (comunidades, raças, credos, povos), necessitam compreender a existência dos dois níveis: pessoal e coletivo, e que o pessoal só cresce, melhora, amplia, se o coletivo (a cultura) cresce, melhora, amplia.

Isto que escrevi não deixa de estar baseado em minhas idiossincrasias e é uma visão pessoal de como as coisas deveriam ser. Mas acredito que há aqui um elemento que talvez ainda não tenha comunicado completamente, e para o qual usarei uma imagem conhecida da humanidade a vários milhares de anos: enquanto farinha, óleo, água, sal, açúcar e fermento não quiserem abrir mãos da existência de suas identidades próprias, não haverá pão. Como a vida quer pão, ela mistura tudo, sova, deixa crescer, sova novamente e põe no fogo - e ela faz o pão sem se preocupar com a preservação do "senso de identidade pessoal" dos elementos que o compõe. Ao contrário, a ela apenas interessa a identidade que terá o pão. Tem pão que fica delicioso. Há alguns que ficam ruins. O delicioso, a vida compartilha e come, alimentando e fortalecendo. O ruim, a vida lança na lata de lixo e sequer lembra que não ficou bom. E lá ficam farinha, água, óleo, fermento, sal e açúcar se decompondo, fazendo sentido apenas os micro-organismos, vermes, moscas e congêneres - o que também é um serviço prestado à vida, mas... venhamos e convenhamos...

Que espontânea alegria eu percebo em mim ao me dar é na direção de fazer parte o pão delicioso, para ser compartilhado. Não deixo de ser farinha ou água ou fermento, etc., e não quero que os outros elementos deixem de ser o que sejam, mas o que sou e o outro é só tem sentido se compõe para o alimento. Caso não, tristeza, frustração e alimento para o zumbi, que se fortalece e volta a tomar conta, com toda a sua verborragia vitimoza e convicta de que no outro o inimigo está sempre prestes a se revelar.


To com fome e quero pão do bão!

terça-feira, 23 de abril de 2013

SOLIDÃO HUMANA




Ultimamente, antes de mergulhar nas ondas, vagas e tsunamis vindas dos diversos (na maioria das vezes 2) lados de uma questão levantada pela mídia como verdadeiro bastião da discórdia,  promovendo indignações de lá e de cá, pergunto-me: a que responsabilizar por isto? Uso o pronome "que", posto que acredito alguns ou muitos quens só poderem ser um "o que", uma coisa, uma organização, uma instituição, uma classe, uma tribo, gueto, comunidade... com uma boca enorme, uma língua frenética e muito, muito pouca eficiência cerebral e valorosidade cardíaca 

Ninguém tem razão e todos têm razão. Na contenda entre as razões, seus pífios e inflamados guerreiros investem um contra o outro até a morte de um deles - com direito a colocar o pé em cima e urrar a vitória. Da luta, o resultado? Apenas vencer! Daquilo que se defendia, os resultados? Mais guerra, claro!, pois sempre haverá a "família" e os confrades do morto X a família e os confrades do algoz (vencedor)! Ah, e tem também a legião de indignados, que, temerosos de que o conflito invada seus doces, confortáveis e seguros territórios, passam a bocarrar e linguadibnar muito mais do que aqueles mais próximos ao fato em si. E assim vamos construindo nossa civilização e sociedades, apenas mais sofisticadas e complexas, mas tão próximas, na reação de seus íntimos, àqueles que os cultos e civilizados chamam de primitivos ignorantes.

E eu me perguntando: O que responsabilizar por isso? A resposta não surge, mas sou acometido por um olhar grande e longo, que, num átimo, e sob a égide de uma capacidade misteriosa de síntese, coloca sob minha visão a história toda desta nossa tão cara humanidade; o tempo de vida possível para cada indivíduo humano, em contraponto ao tempo de existência da humanidade; a soma incalculável de todos os que desde o advento do homem na Terra já viraram pó (ou cinzas); os todos de nós em seus cotidianos neste exato momento; os poucos considerados grandes e influentes emparelhados com enorme massa de comuns viventes; as revoluções; as chamadas conquistas do pensamento humano; a quantidade de coisas já feitas pelas mãos de cada um dos bilhões de seres humanos de todos os tempos, seus orgasmos, suas sempre mesmas trajetórias físicas, que vão do feto ao cadáver inevitável...

Sinto peso e tristeza. Afundo levado pela âncora amarrada no centro de meu cérebro. A corda que a amarra? O esforço para encontrar uma explicação e uma saída. Fico sem ar, debato-me contra as paredes de minha caixa craniana. Sem ar e sem forças, sei que irei morrer. Desisto. Aceito a morte que chega. Entrego-me.

Subitamente meus sentidos me chamam e eu me dou contas das coisas em meu estúdio, dos sons que chegam da rua, do vento que entra pela janela, do cheiro e do sabor dos amendoins que eu estava comendo sem sequer ter me dado conta de como vieram parar em minha mão. Então não morri? Morreu!, um pensamento me diz. Pois bem, então morri, mais uma vez. E fui ler o que escrevi aqui. E me dei conta de que em momento algum a Natureza teve participação em minha visão. Só havia gente, homens, humanidade. Afora estes, nenhum outro animal, ou vegetal ou mineral. Sem terra, sem fogo, sem água, sem ar. Sem montanhas, planícies, vales, mares, oceanos, lagos, nuvens... Ah, de quanta solidão a humanidade se cercou! 

E foi assim que a resposta se me deu!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

PROFERIDO ESTÁ 07


Milton Santos:
O Brasil, pelas suas condições particulares desde meados do século 20, é um dos países onde essa famosa indústria cultural deitou raízes mais fundas e por isso mesmo é um daqueles onde ela, já solidamente instalada e agindo em lugar da cultura nacional, vem produzindo estragos de monta. Tudo, ou quase, tornou-se objeto de manipulação bem azeitada, embora nem sempre bem-sucedida. O Brasil sempre ofereceu, a si mesmo e ao mundo, as expressões de sua cultura profunda através do talento dos seus pintores e músicos e poetas, como de seus arquitetos e escritores, mas também dos seus homens de ciência, na medicina, nas engenharias, no direito, nas ciências sociais. Hoje, a indústria cultural aciona estímulos e holofotes deliberadamente vesgos e é preciso uma pesquisa acurada para descobrir que o mundo cultural não é apenas formado por produtores e atores que vendem bem no mercado. Ora, este se auto-sustenta cada vez mais artificialmente mantido, engendrando gênios onde há medíocres (embora também haja gênios) e direcionando o trabalho criativo para direções que não são sempre as mais desejáveis. Por estar umbilicalmente ligada ao mercado, a indústria cultural tende, em nossos dias, a ser cada vez menos local, regional, nacional. Nessas condições, é frequente que as manifestações genuínas da cultura, aquelas que têm obrigatoriamente relação com as coisas profundas da terra, sejam deixadas de lado como rebotalho ou devam se adaptar a um gosto duvidoso, dito cosmopolita, de forma a atender aos propósitos de lucro dos empresários culturais. Mas cosmopolitismo não é forçosamente universalismo e pode ser apenas servilidade a modelos e modas importados e rentáveis.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PROFERIDO ESTÁ 06


Arthur Rimbaud, em Iluminuras:

Tu te pões a trabalhar: todas as possibilidades harmônicas e arquiteturais vão se comover ao redor de tua cadeira. Seres perfeitos, imprevisíveis, vão se oferecer às tuas experiências. Em tuas imediações, fluirão em sonhosa curiosidade das antigas multitudes e luxos ociosos. Tua memória e teus sentidos serão o único alimento de teu impulso criativo.
Quanto ao mundo, quando tu saíres, o que ele será? Em todo o caso, nada dessas aparências atuais.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

DICAS DA SEGUNDA 06


Em pé, abra as pernas*. Encaixe as mãos nas virilhas, de forma que cada mão segure a parte interna de uma das coxas. Flexione levemente os joelhos. Engula a saliva que estiver na boca. Assim como está, caminhe até um espelho. Observe o caminhar. Em frente ao espelho abra bem os olhos e escancare a boca, colocando a língua para fora. Mantenha-se assim até não mais conseguir segurar gargalhada. Enquanto ri, desmonte a posição e, ainda em frente ao espelho, relaxe por uns momentos balançando o corpo, feito joão-bobo. Saia da frente de espelho e dê uma volta pelo ambiente, observando-se. Volte para o espelho e inspire profundamente. Retenha o ar enquanto conta mentalmente até 21. No 22 solte o ar dizendo, para sua imagem no espelho: Eu ein? Tem cada maluco neste planeta! De um tchauzinho para si mesmo e, vivas!, comece seja lá o que for. 

* Se preferir (e puder), antes, dispa-se completamente.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PROFERIDO ESTÁ 05


Friedrich Wilhelm Nietzsche, em Além do Bem e do Mal:

A independência é o privilégio dos fortes, da reduzida minoria que tem o calor de se autoafirmar. E aquele que trata de ser independente, sem estar obrigado a isso, mostra que não apenas é forte, mas também possuidor de uma audácia imensa. Aventura-se num labirinto, multiplica os mil perigos que implica a vida; se isola e se deixa arrastar por algum minotauro oculto na caverna de sua consciência. Se tal homem se extinguisse, estaria tão longe da compreensão dos homens que estes nem o sentiriam nem se comoveriam em absoluto. Seu caminho está traçado, não pode voltar atrás, nem sequer lograr a compaixão dos seres humanos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DICAS DA SEGUNDA 05


Onde estiver, escolha uma das janelas e vá até ela. Lá, fique de costas para a paisagem. Ouça os sons que vem de fora. Escolha um e imite-o, primeiramente baixinho, até sentir confiança. Assim que achar que está bem treinado, vire-se e emita o som janela à fora, o mais alto possível. Imediatamente se agache ou se esconda. Divirta-se com a delícia da molecagem. Pronto! Agora é voltar ao que estava fazendo ou começar seja lá o que for.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

PROFERIDO ESTÁ 04


Contra os Intelocratas - Olavo de Carvalho, no livro O Imbecil Coletivo.

É voz corrente, se não convicção unânime entre os intelectuais brasileiros, que a produção cultural no Brasil decaiu em qualidade ao longo das três últimas décadas. A esse reconhecimento do mal não se segue, porém, nenhuma tentativa de debater e investigar suas causas e os meios de curá-lo. A constatação do estado de fato, ao esgotar-se em si mesma, torna-se resignação fatalista ou cinismo complacente. Isto mostra que, na vida cultural brasileira, o que decaiu não foi somente a produção — a manifestação exterior —, mas a motivação íntima, o nível de comprometimento dos intelectuais e artistas com os valores que nominalmente legitimam sua atividade.

Texto completo: http://pt.scribd.com/doc/58711149/13/CONTRA-OS-INTELOCRATAS-85

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

DICAS DA SEGUNDA 04


Em algum momento do dia, lembre de levantar a cabeça. Olhe para cima e explore o que vê por algum tempo. Volte ao que estava fazendo. Desconcentrou-se? Muito bom! Vá pegar um copo com água. Beba gole a gole, “mastigando” a água. Enquanto bebe, procure perceber/sentir o seu coração batendo – a pulsação do sangue nas veias. Ao fim, encha novamente de água o copo. Não beba. Simplesmente jogue a água fora, vagarosamente. Se, após isto, sentir ânimo para voltar ao que estava fazendo, volte e se observe nas possíveis mudanças de estado de espírito. Caso não se anime a voltar, dê as costas ao que estava fazendo e comece seja lá o que for.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PROFERIDO ESTÁ 03


Por Nise da Silveira:

A sombra, em sentido psicológico, faz parte da personalidade total. As coisas que não aceitamos em nós, que nos repugnam e que, por isso, reprimimos, nós as projetamos no outro, seja ele o nosso vizinho, o nosso inimigo político ou uma figura-símbolo, como o demônio. E assim permanecemos inconscientes de que as abrigamos dentro de nós. Lançar luz sobre os recantos – as sombras – tem como resultado o alargamento da consciência. Então, já não é o outro quem está sempre errado, Descobrimos que frequentemente a “trave” está em nosso próprio olho. Quanto mais a sombra for reprimida, mais se tornará espessa e negra.